Para abrir a semana, recebemos do nosso leitor Joca um relato sobre sua relação com o vinho e a cerveja. Confira e opine!
–
Admito que tenho lá meus preconceitos!
Sou apaixonado por vinhos, e sempre que penso em toda essa onda de valorização que a cerveja tem recebido fico um pouco ressabiado. As características de produção de um bom vinho se iniciam no plantio, na escolha das mudas e do território, no modelo de lida com o parreiral, passando pelo tipo de poda, hora da colheita e até o modelo de colheita utilizado (mecânica ou manual), tendo fundamental influência o terroir – local, terreno, cultura de produção e práticas de cada região.
Isso tudo me transporta para um ambiente mais romântico do que o modelo
“industrial” de produção de uma cerveja. Porque, trocando em miúdos, você
pode fazer cervejas praticamente idênticas em dois países completamente
distintos, mudando apenas a água e a contaminação por bactérias do local e
a mão de obra. É só comprar os ingredientes certos e mandar bala.
Não que eu não goste de cerveja. Há uns bons anos era a minha bebida preferida, principalmente o chope, junto a toda algazarra e confraternização que um encontro regado à bebida da cevada proporciona. Imagine-se tomando um champanhe ou vinho após uma peladinha com os amigos… Nem pensar! Mas era sempre num conceito qualitativo de menor valor. Cerveja loura e quase estupidamente gelada para refrescar.
Aí surgiram esse “montarel” de cervejas gourmet em nosso depauperado mercado brasileiro dominado pelos produtos fáceis. Algumas com valores nada amigáveis. Cervejas feitas em pequenas quantidades e até as feita sem casa. Nesse meio tempo tive a oportunidade de provar algumas. Em certos casos foi decepcionante, como a vez que provei uma cerveja feita ao estilo dos espumantes, pelo mesmo preço ou mais que um bom espumante feito no Brasil ou importado. Sem contar que o produto não tinha lá essa palatividade toda. Isso tenha talvez me deixado com um pé atrás.
Então, mesmo tendo provado algumas que me agradaram desde o princípio, como o primeiro lote da monastério da Falke Bier e outras também muito boas, sempre tive uma forte impressão de que o vinho é mais gastronômico, se dá melhor com pratos mais elaborados.
Mas há pouco tempo tive a oportunidade de degustar algumas cervejas que me deixaram com uma pulga atrás da orelha. A Wäls Tripel não é das baratinhas, mas tem um buquê muito interessante, tem presença marcante e vai bem com muitos pratos. Já a Colorado Appia não é novidade no mercado e se destaca e muito no nicho de cervejas feitas com trigo. Muito pela exuberância aromática, esses tipos de cervejas pedem uma gastronomia mais generosa, com molhos em abundancia e ambientes descontraídos.
Sem preconceitos ou disputas, vejo que cerveja e vinho são complementares, cada um em seu ambiente. São bebidas gastronômicas que valorizam o momento e uma boa refeição. Para finalizar, se tem uma coisa que a cerveja arrebenta com o vinho é na possibilidade de qualquer um poder produzi-la. Se por um lado é quase impossível fazer bom vinho em qualquer lugar do mundo, por outro, os homebrews fazem bonito por onde andam.
–
A Associação Brasileira de Sommeliers, que antes ministrava apenas cursos sobre vinhos, agora oferece também formação em bier sommelier. Vale conferir!